25 de Abril

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 (este texto foi escrito a 26 de Abril de 2012 e revisto a 26 de Abril de 2015)

A liberdade é uma necessidade – um privilégio que nos permite comunicar de forma honesta e genuína com o outro. Um privilégio que é um direito e como tal um dever. Porque a liberdade, se não for permanentemente trabalhada é esquecida, abandonada, transforma-se num valor insignificante somente aclamado durante exercícios de memória (daqueles que a sentiram), ou após um conflito/flagelo que, de tão negro, evidencia a sua importância.

E a cultura é essencial para o desenvolvimento da liberdade. Antero de Quental afirma, no livro “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares” o seguinte: “Pelo caminho da ignorância, da opressão e miséria chega-se naturalmente, chega-se fatalmente, à depravação dos costumes”.
Kandinsky diz no seu “Do espiritual na arte” que “compreender é educar o espectador e atraí-lo para o ponto de vista do artista”.
Acredito que hoje, 38 anos após o 25 de Abril nos arriscamos a “chegar fatalmente, à depravação dos costumes” porque há cada vez mais barreiras para “compreender”.

Pelo caminho da ignorância:
Infelizmente os media portugueses de grande dimensão dirigem diariamente os nossos sentidos para uma cultura superficial que exibe conteúdos pobres, artisticamente vazios e tecnicamente limitadíssimos. A técnica é fundamental para, numa última análise, impor os índices de espectaculosidade e eficácia presentes num momento de entretenimento. Ouvimos, por exemplo, a falecida Whitney Houston, a poderosa Aretha Franklin num concerto ao vivo, ou a Diane Reeves a cantar “Ain’t no Mountain High Enough”  numa produção exuberante e conseguimos apreciar várias passagens reveladoras de um talento vocal extraordinário. Se compararmos esta tipologia de intensidade e presença musical com a insegurança e apatia do vencedor de qualquer edição dos “Ídolos” que, ao ser-lhe colocado um teste de dificuldade virtuosa se vê aflito para exibir o seu poder vocal num registo totalmente afinado e expressivo,  distinguimos claras diferenças.
Estes programas vulgares embaciam os olhos do público geral, uma vez que estabelecem a mediocridade enquanto norma. E é através justamente desses maus exemplos que se criam péssimos hábitos de apreciação: o público começa a acreditar que uma voz mais ou menos afinada é suficiente para garantir um percurso artístico relevante. Pior do que este empobrecimento de exigência, é a substituição de objectivos nobres como “ter um percurso artístico relevante” por “ser famoso”.

Assim, verificamos que o público é passivo e pouco criterioso. Este deixa de estar atento a alternativas que fogem dos modelos televisivos, desenvolve conceitos de opinião baseados em palavras vazias como “bichinho da música” e segue somente as tendências impostas por indústrias de entretenimento. A adesão subconsciente a esta cultura efémera e leviana condiciona o público geral, convencendo-o a deixar de ter opinião sobre qualquer assunto, a ficar ainda mais amorfo, a rejeitar o pensamento, a preguiçar perante uma decisão do que ouvir, do que ver, a transformar-se num comprador impulsivo de inutilidades que não controla esse mesmo impulso. No fundo, a esquecer-se de ser livre.

Infelizmente este estado de espírito acrítico, incentiva também o crescente afastamento por parte dos diversos agentes responsáveis pelo desenvolvimento dos infindáveis nichos estilísticos da dita “alta cultura”. Estes agentes também são culpados nesta fatal separação. Muitos envolvem-se de tal ordem na orgia conceptual da sua intelectualidade que se esquecem da importância social da arte em prol da personagem que representam. Anseiam pelo reconhecimento dos que consideram seus semelhantes (ou seja indivíduos pertencentes ao mesmo nicho), e protegem o seu conceito com unhas e dentes de forma a garantir um sucesso constante, mesmo que esse sucesso seja suportado pela admiração de apenas 10 espectadores. Outros descobrem receitas de fácil acesso, permitindo assim a compreensão por parte de um público geral financeiramente estável mas intelectualmente apagado e decoram todo o seu trabalho com pinceladas pseudo-contemporâneas enquanto abraçam o regime e cumprimentam, mastigando de boca aberta uma fatia de bolo-rei, o Cavaco Silva.

O que sobra: alguns raros exemplos de autenticidade associada a uma qualidade expressiva genial. Exemplos esses infelizmente pouco visíveis devido ao risco que significam. Para a indústria e para os media são uns “fora-da-lei” que, de forma inesperada, desafiam o público a sentir emoções inexplicáveis e com isso a questionar a sua própria existência. Para os cultivadores de nichos, estes artistas representam verdadeira genuinidade, ou seja, um verdadeiro progresso criativo e por isso mesmo, colocam em causa a sobrevivência do embrulho que caracteriza o nicho. Estes criadores subversivos, estes artistas com uma visão própria (para o bem e para o mal),  raramente alcançam o público geral e quando isso acontece na maior parte das vezes já são velhos , já fazem parte da história da arte recente ou pior, já faleceram.

A Opressão e Miséria:
A dieta cultural proposta pelos media, pelo baixíssimo orçamento de estado para a cultura, pela falta de critério e de coragem dos principais programadores e equipamentos culturais, indica a presença de uma opressão escondida, que associada ao empobrecimento financeiro das famílias (ou seja, o inicio da miséria) reprime qualquer vontade de intervenção por parte dos artistas como por parte dos espectadores.
Vejamos, imaginem que eu sou um cidadão comum, que paga impostos, que tem em casa um familiar doente, que tem filhos, que tem um trabalho cansativo. Chego a casa estafado e descubro que há um concerto de nome estranho ali mesmo ao lado. O bilhete custa 10 Euros, uma quantia significativa para as minhas parcas economias. A música é-me desconhecida porque não apareceu na televisão. Aliás, o meu patrão que é doutor e por isso, calculo, um intelectual, já me disse que para ver bons concertos tenho que ir ao CCB ou à Casa da Música, o que, qualquer das formas, me fica extremamente caro porque vivo num subúrbio de Lisboa e não posso gastar assim de uma só vez 30 Euros para assistir a concertos de nome também estranho. O melhor é ficar em casa esta noite a ver “A tua cara não me é estranha”. Sempre descanso um bocado a cabeça e ainda me rio com facilidade. Poupo os 10 Euros e, com jeito, daqui a dois meses já posso ir ver o Benfica ao Estádio da Luz. Sim, porque eu até podia ter sido futebolista ou cantor…só que não tive a sorte de começar num clube grande (como o Yannick), nem tenho o “bichinho da música” (como a Luciana). E com isto continuo pouco curioso, não educo a minha sensibilidade, não me apetece ter opinião e condeno quem opina, estou-me a borrifar para o que se passa no mundo. Contento-me com ideias pré-definidas, com lugares comuns, e abstenho-me nas eleições porque os políticos são todos uns vigaristas e é assim a vida…o que é que se pode fazer…?

Estou num regime de opressão e miséria. Não tenho dinheiro para comprar ou alugar um livro, um filme que ponha em causa as minhas opções, que levante hipóteses alternativas, que incite a dúvida. E, verdade seja dita, entre o livro e a minha sobrevivência, opto, obviamente pela minha sobrevivência.

38 anos depois de uma revolução importantíssima para a construção de uma democracia, de uma ilusão de liberdade que ainda pode ser efectivada, torna-se imperioso resistir. E o melhor veículo de resistência, devido (entre muitos outros motivos) à sua subjectividade, é a Cultura.
Deixo aqui uma sugestão: comecem a escolher as experiências culturais mais desafiantes; não esgotem a existência criativa numa salva de palmas; comecem a reivindicar direitos profissionais (para os artistas) aos equipamentos que alimentam a dieta cultural, dificultando-lhes a organização e relembrando-lhes que, sem os músicos, não há concertos, sem actores, não há peças de teatro, sem pintores, não há exposições, tal e qual como sem médicos, não há curas…; sejam intransigentes perante as rotinas do sistema; perguntem porquê e para quê; juntem-se e facilitem o acesso à cultura a todos os que ainda não sabem o quanto é bom ser curioso, o quanto vale a pena compreender, o quanto vale a pena sentir sem entender a razão, o quanto é importante ser livre!

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