30 anos em Portugal

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Hoje em dia é difícil ter 30 anos em Portugal. Senti um brilhozinho quando participei na manifestação no dia 15 de Setembro. Uma esperança vaga de que talvez, talvez, acontecesse uma surpresa.
Depois de um 5 de Outubro estranho, em que mais uma vez o país reagiu e se indignou (e com muitos motivos para tal!), é verdade que se sente, neste momento, uma vontade de mudança generalizada, associada a uma contestação frequente e presente. Permanece a dúvida, será que os atuais responsáveis não têm ouvidos? Por outro lado, queixava-me eu no outro dia, em conversa com o amigo Filipe Eusébio, que esta energia espectacular incentivada pelos portugueses nas múltiplas manifestações que aconteceram, e nas quais também participei, não estava a ser dirigida e organizada para a procura de soluções e sobretudo para a construção de uma nova forma de viver e de estar em Portugal: onde o “medo de existir” de José Gil seria somente uma memória, e a coragem associada à qualidade se transformaria na nossa imagem de marca. Em vez de recorrer sempre aos heróis da bola e do fado, em vez de transmitir mensagens positivas carregadas da história dos Descobrimentos, iríamos enaltecer o país pelo seu “conhecimento” contemporâneo e moderno, pelos feitos únicos na ciência e na arte de hoje, concretizada por artistas e cientistas vivos e com margem de evolução. O termo “emergente” e “novo” passaria a ser recorrente nas nossas conversas de café, a cultura acessível e com disponibilidade para o debate, para a troca de ideias. As opções de curadoria e programação preocupar-se-iam em alcançar todos os vectores de criação sem recorrer às desculpas medíocres das “necessidades de mercado” e existiria uma política de exportação do valor nacional (mas valor real! Não um pseudo-valor apenas reconhecido pelo seu mediatismo!). Os cientistas apresentariam as suas inovações em congressos internacionais, mas realizariam a sua pesquisa nas Universidades e instituições nacionais. Os artistas convidados para liderar Masterclasses ou Workshops seriam portugueses, e os participantes estrangeiros.
Sei que no outro dia, houve um evento que, se calhar, procurou alternativas. Contudo, será que se foi ao fundo do problema? Será que se deixou de lado os interesses partidários (mesmo os mais ténues), interesses habitualmente envolvidos num limitado espirito de sobrevivência que somente reflectem sobre o presente e um futuro muito curto.
Hoje em dia é difícil ter 30 anos em Portugal. Quase sempre me sinto um órfão na criação. Tenho medo de me pronunciar sobre outras músicas porque, geralmente, a minha análise que tenta ser séria e pessoal fica assustada com a imunidade critica oferecida a artistas “adorados” pelas massas. Tenho medo de me pronunciar sobre política, porque raramente encontro alguém que não pertença a uma família partidária ou a uma cooperativa de oportunidades. A única coisa que desejo é fazer a melhor música que consigo todos os dias. No entanto, por vezes a agressividade da escolha, o “gostos não se discutem” é tão forte que para proteger a minha vontade criativa tenho que me calar, que escrever linhas privadas que nunca partilho. No fundo sinto que há duas ditaduras: a da austeridade e a do mercado que leva a determinadas opções do povo, básicas no seu fundamento.
Se vivesse num Portugal a caminho deste futuro realmente livre onde o “novo” e o “emergente” seriam motivo de orgulho, seria fácil acreditar. Seria fácil ser feliz.

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