Recorte de uma entrevista recente

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Caros leitores: acredito que esta resposta só foi possível devido a alguns dos artigos presentes neste Blog. Além do mais, a pergunta é extremamente actual. Dois motivos suficientemente fortes para que a resposta em causa fosse “recortada” e incluída na colecção de escassos textos que compõe este Blog.

Mais uma vez, muito obrigado por este momento de partilha que nos proporcionou. Para terminarmos esta entrevista, vamos fazer-lhe uma pergunta mais abrangente… A cultura em Portugal é várias vezes apontada como uma área desprezada pelos que governam. Concorda com esta afirmação? O que considera ser urgente mudar? Se pudesse propor mudanças, quais seriam as suas prioridades?
JV – Concordo totalmente com a afirmação. Escrevi sobre este tema no ensaio “Ser de Cultura” presente na Revista Via Latina da Universidade de Coimbra em 2013. Os governos sempre tiveram uma postura indiferente perante a cultura. Digo mais, há uma enorme hipocrisia na relação entre os governos e a cultura. Os governos têm geralmente uma atitude de desprezo perante a cultura, mas ficam todos “inchados” quando um francês ou alemão lhe comunica que adora o fado. Os governos têm uma qualidade intelectual insignificante (a maioria dos governantes são incultos), mas quando se assina um tratado qualquer em Lisboa, contrata-se um músico “da moda” que aparenta pertencer aos quadros da “alta cultura” (ou seja um valor musical/artístico pobre, mascarado de erudito). Os governos não compreendem uma verdade universal: se tivermos conhecimento, mais depressa nos aproximamos da liberdade e da independência. Todos os cortes verificados na investigação científica/artística (de onde nasce a cultura contemporânea) demonstram uma atitude adversa à evolução cultural. No meu entender, uma crise financeira não pode justificar nem alimentar uma crise de valores e de capacidade interventiva. O que deveria fazer um governo de um país periférico como o nosso, perante um regime financeiro aparentemente inquebrável? Deveria apostar na cultura! Naquele elemento caracterizador e distinto que nos permite descobrir novidades e soluções, ou seja, nos permite expor uma independência e com essa independência, uma coragem. Uma independência inclusivamente apetecível aos outros países.

José Valente

No fundo, ao apostar no conhecimento estaríamos a fabricar uma moeda de troca mais poderosa do que qualquer Euro.
Passados 40 anos do 25 de Abril, é tempo de abandonarmos os receios e os trejeitos mesquinhos do tempo da velha senhora. Se nos deixarmos de preocupar com as aparências (que iludem), de nos preocupar em acompanhar as tendências de “lá de fora” talvez surja um espaço de incentivo às tradições contemporâneas (tradições que ainda não existem), um espaço de criação de tendências únicas e genuínas. Gerar e motivar tendências genuínas mas com critério, sem cair em slogans balofos como “porque é nacional é bom”. Os portugueses, geralmente, opinam através de extremos e sofrem de um complexo de inferioridade. Quantas vezes não ouvimos, lemos comentários como “Viva o Pop nacional! Porque o nosso Pop não fica nada atrás do que se faz lá fora!” (cá está, o complexo de inferioridade perante o estrangeiro. E muitas vezes esse Pop nacional é tão mau quanto o internacional. Vamos ficar felizes somente porque em Portugal se fazem coisas tão más quanto lá fora? Porque não criamos a alternativa?); ou então, “tenho um primo que emigrou para França. Limpa Sanitas. Lá é que é bom. As sanitas são cor de rosa e as nossas, lamentavelmente, são todas brancas.”
Vivemos um período de tenebrosa pobreza. Pobreza de meios, de recursos, de igualdade, de solidariedade, de reflexão. Um exemplo desta pobreza espelha-se, em parte, nos miniclubes que defendem certos de modos de vida/hábitos/interesses. Para mim estes miniclubes são um paradigma da democracia dividida e não participativa, característica deste início de século ocidental. Eu tenho a sensação de que os miniclubes se estão a multiplicar, que são cada vez mais fechados em especificidades, escassos em número de participantes e um pouco inconsequentes. Esta circunstância é fruto de uma tipologia de relações humanas bastante presente na sociedade atual. Generalizando: parece-me que os humanos precisam de se alimentar de estímulos de aceitação, precisam de uma confirmação existencial permanente. Por isso mesmo, encontramos cada vez mais aglomerados de pessoas que gostam de comida crua ou que só vêm cinema iraniano. Vivemos, neste início de século, um período da nossa evolução em que o homem-massa é cada vez mais insensível, uma vez que está viciado na constante atualização tecnológica e no desejo de receber novidade, seja esta positiva, negativa, relevante ou irrelevante. Um exemplo deste fenómeno é uma situação habitual em concertos: o humano/espectador vai a um concerto, tira uma foto ou faz um curto vídeo ilegal e “posta-o” (adoro esta palavra, pois é na sua essência bastante rude) no Facebook com um comentário “estou a ver fulano de tal” (um músico qualquer com importância social significativa, tipo figura pública). Ora, semelhante gesto revela vários aspectos: 1) o espectador não está efetivamente a ouvir, ou melhor não está concentrado no que se passa em palco. Para ele, ir ao concerto é somente um ato de afirmação pessoal, baseado num sentimento básico, um “eu estive aqui e tu não”. 2) de repente, um músico sem se dar conta está a interagir com imensas pessoas de forma descontrolada. Isto até poderia ser bom, sendo que, neste caso a interação é extremamente impessoal e superficial. Os miniclubes de vontades e de gostos resultam de um desejo ávido por parte do humano em se sentir especial. Depois, há o reverso da medalha: em vez de se especializar num fundamentalismo literário, por exemplo, o humano apenas absorve e não contesta, não comenta e obviamente, não vota, não pensa sobre o que o rodeia e fica estanque. Mas vai a todos os festivais com títulos alusivos a uma marca de telemóveis, arrastado pela opinião das massas (a moda) e seduzido pela publicidade. Aliás, dentro deste panorama temos que ter em consideração a insegurança financeira sobretudo no nosso país. Estando um humano com dificuldades para sobreviver, como poderá este ocupar os seus pensamentos com as tarefas de uma associação ou coletividade que organiza workshops de costura experimental? Perante semelhante conjuntura, o humano está condenado a ocupar os seus tempos livres com a oferta dos media, ou seja, telenovelas, reality shows e concursos com participantes pouco talentosos (que alimentam o sonho do humano em se tornar especial). Quando este humano, ou melhor, homem-massa decide gastar tempo e dinheiro, escolhe aquilo que lhe foi inconscientemente imposto: os festivais das marcas de telemóveis, onde este poderá atordoar a sua falta de “sonho” com cerveja. O Agostinho da Silva já comentava este ciclo de vida nos anos 90, na altura, devido ao aumento da toxicodependência jovem. Este mesmo ciclo de vida, lembra-me uma parte da letra da canção “Felicidade” do Tom Jobim: “A felicidade do pobre parece / A grande ilusão do carnaval / A gente trabalha o ano inteiro / Por um momento de sonho / Pra fazer a fantasia / De rei ou de pirata ou jardineira / E tudo se acabar na quarta-feira”.

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