O enigma de “Chandelier”

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Num dia destes, enquanto lanchava no café Vitta Roma na Avenida de Roma em Lisboa, fui surpreendido pelo vídeo clipe da canção “Chandelier” da cantora SIA Furler que passava num canal de televisão qualquer cuja grelha consiste na exposição permanente de vídeo-clipes. O meu interesse inicial não foi provocado pela música mas pelo cenário e pela dança que decora (neste vídeo-clipe) a canção propriamente dita.

O cenário em causa consiste num apartamento degradado, pouco mobilado, vazio de vida, que transporta o espectador para um ambiente social decadente e desencantado. Durante o desenrolar da canção, uma menina coberta de neutralidade com um fato cor de pele e uma peruca loura cortada em franja enfiada na cabeça (à semelhança do corte de cabelo da SIA, como vim mais tarde a descobrir), dança energicamente pelo espaço (ou seja: para mim, que sou um leigo, a menina mexe-se muito durante a canção).
Este vídeo-clipe não me encheu os sentidos de emoção, não me deixou boquiaberto devido a uma qualquer genialidade conceptual associada a um virtuosismo técnico exímio e inovador. No entanto, apesar disso, decidi ver o vídeo de forma quase obsessiva por duas razões: compreender o carácter viciante da canção (é nitidamente uma canção feita para a ser “hit”) e entender  a razão por detrás desta conjugação esforçada duma canção banal com uma coreografia e um cenário supostamente bizarros e desagradáveis, reveladores, se calhar, de intenções artísticas mais subjectivas e profundas do que as habitualmente atribuídas a um ambiente comercial e entretido.
É certo que se pode contestar esta minha última razão através de uma série de argumentos válidos, explicados pela filosofia inerente à lógica do comércio da arte ou, por outras palavras, mercado de entretenimento: a associação entre uma canção ligeira e uma dança aparentemente desajustada dessa leviandade artística justifica-se pelo efeito de choque que esta simbiose estranha gera num espectador comum. Contudo, em meu entender, tal hipótese, quando bem concretizada, não recaí necessariamente neste tipo de recurso. Muitas vezes este objectivo de provocação é alcançado, num universo pop, por veículos bastante mais extravagantes do que uma singela dança numa casa triste. Por outro lado, existem inúmeros casos de artistas pop se interessam, genuinamente, por colaborações imprevisíveis com facetas artísticas alternativas ou eruditas. Tais exemplos nascem, em geral, de vontades pessoais, que assumem tranquilamente o risco de um provável insucesso comercial (por vezes, muito pelo contrário, proporcionam uma surpreendente adesão de um público preso aos critérios da popularidade e da fama). Estes desejo de experimentação é de louvar porque demonstra que a lógica do consumo não se estrutura, obrigatoriamente, na receita – “canção básica + avalanche publicitária = muitas vendas = sucesso” – que fundamenta as opções estéticas de praticamente toda a música pop actual. O mercado do entretenimento (que adora designar arte como sinónimo de entretenimento), aposta violentamente na decoração (por outras palavras: na imagem e na conjuntura mediática do produto); no espectáculo ridículo; na distribuição gratuita de tendências por sua vez provenientes de uma circunstância social especifica e passageira (num registo panfletário); na alimentação de sentimentos como o ódio, a inveja, a crueldade; nas estratégias intensas de divulgação/publicidade. Desprezam a educação dos públicos, a demonstração pura do talento e do esforço dos músicos, a expressão de emoções mais íntimas, perturbadoras e reais do que, por exemplo, a traição ou a sede/jogo do engate. No fundo, acreditam na rentabilização imediata e breve de um investimento barato versus processos mais lentos e originais de contaminação.

Regressando à vaca fria: como referi no parágrafo anterior “Chandelier” comprova todos os cânones musicais de um vulgar “hit”. É uma canção que atraí o ouvinte distraído. Faço uma análise geral:
– Divida em pequenos versos (com dois arranjos distintos) e refrões poderosos com uma dinâmica mais forte;
– Cantada pela voz arrastada e um pouco rouca da Sia, uma perita nesta disciplina visto que foi voice coacher de vários cantores pop (aconselha regularmente a Christina Aguilera, já produziu múltiplos álbuns de outros músicos pop, e já gravou outros tantos em nome individual);
– Uma groove de 4 tempos por compasso: durante os versos diluída através de sons médio-agudos simulados por pratos (da bateria) electronicamente modificados e o estalar dos dedos. A partir do refrão com o 1º tempo no kick drum (som mais grave), 2º e 4º tempo (os tempos fortes) no snare drum (som médio grave) empolados através de um longo reverb que aguenta o som de, sobretudo, cada pancada no snare drum;
– Harmonicamente, esta canção define-se por 4 acordes com funções bem conhecidas na história da harmonia funcional: IGrau menor, VIGrau Maior, VII Grau Dominante, VGrau Dominante (no refrão aparece o III Grau Maior que substitui a tónica em vez do VII Grau); acordes esses que mudam de compasso a compasso e portanto se repetem de 4 em 4 compassos.

Depois de explicada a canção de forma resumida, observemos rapidamente a letra. A aceitação de uma canção por parte de um espectador começa quase sempre pelo simpatizar com a sonoridade geral da canção, de onde nasce uma empatia mais ou menos envolvida que determina o entusiasmo futuro. Assim, por vezes a primeira escuta de uma canção revela muito pouco ao espectador. Depois, dependendo do grau de compromisso, o espectador decide se deve repetir a escuta, aprender a letra, investigar o artista, etc… Dentro deste ponto de vista, admito que as minhas primeiras audições de Chandelier foram inconclusivas relativamente à letra, pois ela era secundária para a minha atenção. Mais tarde, após ter definido uma primeira impressão, apercebi-me que nunca compreendia a letra de “Chandelier” mesmo apontando os meus ouvidos e concentração na direcção das palavras cantadas. A dicção arrastada da Sia não ajudou e a parafernália instrumental que rodeia os versos e os refrões, atrapalhou ainda mais a percepção clara da letra. Fui obrigado a recorrer ao vídeo clipe com legendas para desvendar a temática desta canção.

“Party girls don’t get hurt
Can’t feel anything, when will I learn?
I push it down, push it down I’m the one “for a good time call”
Phone’s blowin’ up, ringin’ my doorbell
I feel the love, feel the love 1, 2, 3, 1, 2, 3, drink
1, 2, 3, 1, 2, 3, drink
1, 2, 3, 1, 2, 3, drink

Throw ‘em back ‘til I lose count

I’m gonna swing from the chandelier, from the chandelier
I’m gonna live like tomorrow doesn’t exist
Like it doesn’t exist
I’m gonna fly like a bird through the night, feel my tears as they dry
I’m gonna swing from the chandelier, from the chandelier

But I’m holding on for dear life, won’t look down, won’t open my eyes
Keep my glass full until morning light, ‘cause I’m just holding on for tonight
Help me, I’m holding on for dear life, won’t look down, won’t open my eyes
Keep my glass full until morning light, ‘cause I’m just holding on for tonight
On for tonight

Sun is up, I’m a mess
Gotta get out now, gotta run from this
Here comes the shame, here comes the shame

1, 2, 3, 1, 2, 3, drink
1, 2, 3, 1, 2, 3, drink
1, 2, 3, 1, 2, 3, drink

Throw ‘em back ‘til I lose count

I’m gonna swing from the chandelier, from the chandelier
I’m gonna live like tomorrow doesn’t exist
Like it doesn’t exist
I’m gonna fly like a bird through the night, feel my tears as they dry
I’m gonna swing from the chandelier, from the chandelier

But I’m holding on for dear life, won’t look down, won’t open my eyes
Keep my glass full until morning light, ‘cause I’m just holding on for tonight
Help me, I’m holding on for dear life, won’t look down, won’t open my eyes
Keep my glass full until morning light, ‘cause I’m just holding on for tonight
On for tonight

On for tonight
‘Cause I’m just holding on for tonight
Oh, I’m just holding on for tonight
On for tonight
On for tonight
‘Cause I’m just holding on for tonight
‘Cause I’m just holding on for tonight
Oh, I’m just holding on for tonight
On for tonight
On for tonight”

Alcoolismo, depressão, desespero, falta de auto-estima, crítica à futilidade das “party girls”: uma temática forte, deprimente e actual. Pois é! Afinal há uma decadência que complementa o cenário degradante. Agora, será que se percebe? Será que a dança da menina atinge o espectador? E a letra imperceptível? Será que o espectador a compreende? Será que se a audição desta canção motiva o espectador a reflectir sobre a temática apresentada?

No dia seguinte fui dar umas aulas num Conservatório. Durante um intervalo apanhei uma aluna de 11/12 anos a cantarolar o Chandelier, usando o telemóvel como acompanhamento/playback rodeada de colegas com a mesma idade (nem comento este fenómeno Factor X…). Mais tarde, ainda no mesmo dia, encontrei outra aluna com 16/17 anos a berrar a mesma canção, desta feita acompanhada por um colega ao piano. Estavam a ensaiar para um concerto.
Poderá ser um preconceito meu. No entanto, tenho quase a certeza de que nem a aluna de 12 anos, nem a de 17, têm consciência do significado da letra, das intenções intrínsecas à canção. A sua ignorância, proveniente da falta de curiosidade que infelizmente caracteriza muitas gerações, leva a que estas duas alunas abracem uma canção devido apenas à sua fama, sem qualquer responsabilidade ou propósito. Está na moda e por isso é bom, é aceite. Pior, se calhar foi um professor do Conservatório (supostamente uma entidade máxima da educação musical com critérios rigorosos) que propôs a interpretação desta canção numa audição do Conservatório, selecção convictamente aprovada pelos pais porque, afinal de contas, a concorrente do Factor X que eles apreciam também a cantou.
Esta situação denuncia uma fatia do dilema que me incomoda: a sociedade ocidental perpetua o seu bloqueio civilizacional porque alimenta a ignorância, a mediocridade opinativa, porque é fiel a parâmetros banais, rezados por quem controla os media e outros meios de comunicação extremamente acessíveis. (O cúmulo desta situação é quando alguém menospreza um programa mau, queixa-se da pobreza qualitativa desse programa, mas vê e continua a ver desculpando-se com a mulher “que gosta de ver coitadinha” ou então com a frase “também não dá mais nada na televisão”).

A Sia conhece os cantos da casa pop e sabe como elaborar um sucesso garantido: desenha uma canção e utiliza como lápis um assunto verdadeiro e recente. Depois, turva esse desenho com a orquestração, harmonização, melodia e ritmo pouco intensos e de adesão fácil. Finalmente borra tudo com uma dança que eleva à superfície o único valor que lhe interessa: o descuido da sociedade ocidental, a desilusão de uma geração jovem, aparentemente, sem futuro – uma geração que se embebeda no consumo da sua canção, ou seja, na escuta inconsciente deste lustre comercial.
Transmitir problemas graves da nossa sociedade através da música é pertinente e saudável. Utilizar esses problemas para depois facilitar nos processos, para depois mentir sobre as genuínas intenções de um resultado musical pobre é, no mínimo, perverso.

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