Ninguém é Original

expo ricardo jacinto e escola porto_27x

Este texto foi escrito para a folha de sala exposta na parede, logo no início da exposição “Escola do Porto: Lado B/Uma História Oral (1969 – 1978)

Para ouvir a composição visitem: https://josevalente.bandcamp.com/album/ningu-m-original

“Existem, na história da música, inúmeros exemplos de evoluções musicais protagonizadas por músicos e compositores genuínos no seu modo de expressão, nas suas opções sonoras, nas suas atitudes criativas perante a sua época mas também perante as suas influencias, Muitos destes exemplos relatam um percurso criativo desenvolvido por três fases de construção de uma identidade criativa: a apropriação de influências de compositores anteriores à sua geração, a ruptura tranquila ou abrupta com essas influências, e a confirmação de determinadas tendências e vontades criativas mais pessoais, eventualmente caracterizadoras de um estilo próprio; o alcançar de uma dimensão global de criação que ultrapassa qualquer necessidade de apropriação ou de ruptura e se concentra apenas na obra.

A proposta inerente a esta encomenda, associada à exposição “Escola do Porto: Lado B (1968-1978)”, obrigou-me positivamente a me relacionar, de uma forma mais direta, com algumas referências musicais selecionadas por dois dos arquitetos presentes na exposição. Autores essenciais na história da música, como Frank Zappa ou John Coltrane.

A relação sugerida (entre o jovem criador e os seus “heróis” artísticos) ofereceu não só uma conjuntura restritiva na técnica de composição (neste caso, a imitação do estilo e do género musical), como uma reflexão sobre as convivências/contradições musicais entre estas referências.

Tendo em conta esta reflexão, procurei nesta obra edificar um diálogo dinâmico entre o comum e o diferente – descobrindo, se calhar, o inevitável, que nem o comum é assim tão distinto do diferente como o diferente tão dissemelhante do comum. 

O homem-massa do século XXI, um homem viciado no consumo desenfreado de estímulos acríticos e superficiais, vive obcecado em provar que é único, que é diferente do outro. Este homem-massa insensível à contemplação ou ao deleite irresponsável, tira fotos de concertos para partilhar nas redes sociais, numa tentativa forçada de se provar “especial” comparativamente ao outro. Aquilo que este homem-massa desconhece é que o outro, por sua vez, também tira fotos dos mesmos concertos por motivos idênticos.

Pesquisei rapidamente o significado das palavras “diferente” e “original”.

“Diferente: Sem qualquer ou alguma semelhança, não possuidor de características que denotam igualdade, que não é igual”. “Original: Que parece produzir-se pela primeira vez: não copiado, não imitado. Que tem carácter próprio, que tem cunho novo e pessoal, que não segue modelo”. Verifico diariamente este esforço geral por parte do humano em se denunciar “diferente” e “original”. É urna escorço transversal a toda uma sociedade, logo impossivelmente “diferente” ou “original” visto ser praticado pela maioria.

No fundo, ninguém é original. Todos nos somos indivíduos que através da nossa individualidade, através da nossa particularidade, contribuímos para a evolução de uma arte honesta, afectiva e catalisadora de pensamentos diversos, de soluções para uma sociedade civilizada, tolerante, fraterna e livre.”

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