Desencontros

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(publicado originalmente na revista Via Latina de 2015. Páginas 36 a 38)

Agradeço mais uma vez à revista Via Latina a convocatória para escrever um ensaio. Em números anteriores desta revista expressei alguns pontos de vista sobre as circunstâncias atuais da cultura em Portugal. Foi interessante rever esses artigos e compreender alguma evolução na argumentação como alguma natural ligação entre os raciocínios e observações patentes em cada texto. Desta vez a desconstrução sugerida pelos editores da revista visa, entre outros assuntos, refletir sobre as novidades inerentes à evolução tecnológica que interferem com o espaço público e com espaço privado. Ou seja, o humano encontra-se mais uma vez (como em todos os dias) perante um árduo desafio: a manutenção e enriquecimento da sua liberdade dentro de uma sociedade mutante e volúvel.

Devido a uma certa falta de tempo como à coincidência na matéria proposta, vou recorrer a alguns dos pontos de inquietação que sustentam conceptualmente o meu próximo disco a solo “Os Pássaros estão estragados”.

Começo com uma questão que me parece fundamental: “Qual o futuro da democracia, da liberdade, se o povo já não sabe qual a essência da sua liberdade? Quando já não pensam, já não se deixam conduzir pela razão, mas estão escravizados por superstições, medos e desejos?” in RIEMAN, Rob, Nobreza de Espírito, Editoral Bizâncio, Lisboa 2011, pág. 40

 

E introduzo aqui uma definição essencial e esquecida por muitos. “Civilização”, segundo o pensador francês Condorcet (que definiu a palavra na 2ª metade do séc. XVIII) “significa uma sociedade que não precisa de violência nenhuma para introduzir mudanças políticas.” idem, pág. 87.

Vivemos num profundo desencontro com a civilização e a liberdade. São-nos forçadas normas de funcionamento e interação através de um “austeritarismo” violento que impõe costumes de produtividade, empreendorismo e autovigilância, como referiu Boaventura Sousa Santos na sua apresentação do Colóquio Internacional Epistemologias do Sul, do ano passado. Como este tão bem denuncia, “quantos jovens de hoje se estão a querer treinar como empreendedores? Ninguém lhes pergunta pelas condições, ninguém lhes pergunta empreendorismo para quê e ao serviço de quem, contra quem? Mas é exatamente a imagem que os mercados financeiros inculcam neles e os desarma na sua resistência (…)”

A resistência é oprimida através de uma constante exaltação do homem-massa medíocre, dependente de impulsos rápidos, viciado na novidade tecnológica efémera (um tema presente no meu artigo “Ser de Cultura” da revista Via Latina do ano passado). A adesão irrefletida deste homem-massa à experiência proporcionada pelas redes sociais, estruturas de comunicação que suscitam uma ilusão de liberdade de expressão mas que são, no fundo, mecanismos de controle e vigilância, transformou-se numa invasão do espaço público e privado, individual ou colectivo. Hoje em dia é pertinente questionar: Até que ponto estamos totalmente livres nesta sociedade (o espaço público colectivo) e pior ainda, até que ponto estamos totalmente livres dentro do nosso cubo, a nossa casa, o nosso quarto, a nossa cama, o nosso aconchego (o espaço privado individual).

Eis o truque: os media vendem uma notícia indefinida que alimenta sentimentos básicos de indignação (o ressentimento e rancor perante aquilo que o outro tem – um outro assunto abordado no ensaio “Ser de Cultura”). Imediatamente o homem-massa aproveita o seu suposto espaço semipúblico-privado (a rede social) e grita a sua opinião desinformada e manipulada. E assim se geram fundamentalismos opostos que, de tão cegos, se distraem nas eternas discussões promovidas pelo mesmos media que lançaram a notícia em primeiro lugar. E assim se geram também empatias que resultam em votos e em carreiras mediáticas (as figuras públicas que são “fazedores de opinião” ou em ‘estrangeiro’ “opinion makers”).

Daniel Innerarity explica no seu livro “O Novo Espaço Público” (editado pela Teorema) como a democracia é, atualmente, uma montra de fogachos de atenção. A turba acorrentou-se a uma zona de conforto onde, em vez de argumentar sobre os seus espaços públicos e privados, modificando-os organicamente consoante as necessidades, acalenta curtas zaragatas sem qualquer resultado final. A transmissão exagerada de estímulos afecta a nossa sensibilidade e entope os nossos sentidos. Os desvios de atenção são provocados cada vez mais ardilosamente. Aproveito para enumerar alguns equívocos de interpretação e alguns desencontros:

No ano passado ouvi e li, por diversas vezes, que em Portugal apesar da crise, a criatividade impera. São inúmeros exemplos de jovens empresários que alcançaram qualquer coisa. Não se sabe muito bem o quê: num artigo da Exame sobre 30 jovens empresários de sucesso, o único que sobressaía de uma lista preenchida com êxitos, era um vendedor de brinquedos científicos (que muitos de nós já vislumbraram nos corredores dos shoppings). De resto, a maioria dos eleitos eram administradores de empresas com marcas estabelecidas no mercado. Isso, no meu entender, não é um feito que mereça um título de “empresário de sucesso” uma vez que o dito empresário não teve de inventar um produto original. O prémio mais correto seria “excelente profissional”.

No que diz respeito à cultura, esta ideia de uma criatividade inacreditável que nasce como cerejas devido à falta de recursos, é falsa e hipócrita. Os media, assim como os equipamentos responsáveis pela divulgação cultural insistem em encomendar listas de “o melhor de dois mil e tal” a figuras públicas muitas delas ignorantes e pouco curiosas. Com esta atitude promovem uma imagem de produtividade semelhante à eficiência desejada pela austeridade. Devido à falta de consciência crítica, à falta de uma exigência ambiciosa por parte do espectador, o regime opressor beneficia e difunde diversos conceitos errados e perversos, nunca revelando situações tristes e preocupantes:

  • Muitos artistas chegaram às listas de melhor algo, mas não sabem como pagar a renda no mês após a sua nomeação.
  • Muitos dos fantásticos projetos que têm sido imaginados durante os últimos anos são o fruto de colaborações e dedicações não renumeradas.
  • Denota-se o afastamento total da sociedade para com a arte quando, por exemplo, há professores do ensino artístico sem receber salários durante meses a fio.
  • E ainda subsiste esta tipologia de proposta: “olha vens aqui apresentar o teu projeto. Será à borla, mas é bom para ti, para divulgares a tua arte”. Infelizmente, este diálogo também sucede entre parceiros, ou seja, entre colegas de trabalho. Um dia destes recebi uma proposta semelhante por parte de outro violetista, professor no ensino superior, que atua com regularidade!

 

Os programadores, por falta quase sempre de meios, pedem aos artistas que desenhem milagres com os instrumentos que lhes são conhecidos e permanentes. Raras vezes é oferecida ao artista a hipótese de trabalhar com tudo, com todos os veículos de expressão. O desafio arranca sempre condicionado logisticamente. Nunca está livre de uma circunstância castradora de possibilidades. E acreditem no que aqui escrevo: é muito diferente escolher simples mas belo, que tentar fazer simples porque não há outra maneira.

Além deste ataque à sensibilidade do humano, deste flagelo cultural que aqui exponho, é preciso considerar a postura resignada do homem-massa quando confrontado com esta realidade prática. A reação comum do mesmo perante este dilema exibe preconceitos antigos relacionados com um infundado desperdício financeiro protagonizado pelos artistas “não comerciais”. Por exemplo, para muitos portugueses, os realizadores de cinema, esses egoístas que se lamentam da falta de apoio financeiro em qualquer oportunidade, são um desperdício social pois vivem da famosa subsidiodependência, logo, dos humildes impostos dos cidadãos. Este argumento, muitas vezes invocado nas conversas de café, é falso. Por um lado o valor correspondente ao apoio é ridículo comparativamente ao valor que apagou a incompetência e ilegalidade bancária recentemente. Por outro, ouvi dizer (e tenho pena de não conseguir confirmar) que a verba em causa é adquirida através de uma percentagem retirada da receita realizada com a publicidade nas televisões etc…

Se associarmos esta desconfiança do homem-massa com as grelhas de programação superficial que apela ao sentimento fácil e explícito, estabelecida pelos media, torna-se custoso para o homem-massa-espectador soltar-se da dialética da eficácia e, como diz Rieman, da escravidão suportada “por superstições, medos e desejos”.

O espectador nem se apercebe que, ao consumir programas onde se invoca a sorte na falta de talento, se exibe a desgraça e dor alheia de forma gratuita, está a permitir que o seu espaço privado seja invadido pela insensibilidade, incompreensão e intolerância – elementos que se opõem à liberdade e sua natural evolução.

Assim, o homem-massa-espectador acaba por estar de costas voltadas para a arte. Consome um entretenimento balofo e preguiçoso e sujeita-se a uma desatenção edificada pelos media que agregada a uma pobreza financeira, o impede de arriscar no desconhecido. Por outro lado, estando os artistas preocupados com a sobrevivência financeira e consequentemente com a continuidade de uma estética inerte que garanta algum sucesso rápido e firme, a produção artística transforma-se em imitação de géneros reconhecidos, com receitas enfadonhas de complexidade pretensiosa e pouco autêntica. Esta circunstância verifica-se na quantidade de nichos fechados que insistem em afrontar qualquer alternativa, que insistem na sua vontade artística como sendo a única vontade verdadeiramente progressista. O fundamentalismo patente na divisão entre artistas é equivalente à distração vivida pelo homem-massa. Ou seja, para um regime opressor atualizado nada melhor para controlar os possíveis interventores do que os ter separados, zangados e ocupados com os seus caprichos pessoais.

A solução é evidente e fácil de redigir: só com uma inversão de intenções, com uma política que coloque a cultura num primeiro plano, é que se alcançará uma sociedade menos individualista, consciente e ativa na construção da democracia, uma sociedade comunitária que favoreça a coragem e acima de tudo o sonho, o desejo. Não são o sonho, o desejo e a sua expressão através da arte aquilo que nos distingue dos animais?

Para concluir este raciocínio cito algo que disse numa recente entrevista ao site Xpressing Music:

Todos os cortes verificados na investigação científica/artística (de onde nasce a cultura contemporânea) demonstram uma atitude adversa à evolução cultural. No meu entender, uma crise financeira não pode justificar nem alimentar uma crise de valores e de capacidade interventiva. O que deveria fazer um governo de um país periférico como o nosso, perante um regime financeiro aparentemente inquebrável? Deveria apostar na cultura! Naquele elemento caracterizador e distinto que nos permite descobrir novidades e soluções, ou seja, nos permite expor uma independência e com essa independência, uma coragem. Uma independência inclusivamente apetecível aos outros países. No fundo, ao apostar no conhecimento estaríamos a fabricar uma moeda de troca mais poderosa do que qualquer Euro.”

Espero ter resumido neste ensaio o desassossego que espelha um pouco do conceito por detrás do meu próximo e primeiro disco a solo intitulado “Os Pássaros estão estragados” a ser editado pela Jacc Records, com as colaborações do artista plástico Paulo Mendes, do ator e investigador Ricardo Seiça Salgado, do escritor Afonso Cruz e de outros artistas (ainda por eleger) cujas obras embelezarão o disco e a interpretação, ao vivo, do mesmo.

Um disco sobre o desencontro com a liberdade por parte do homem, todavia recheado de encontros entre artistas.

(Nota do autor: Entretanto o disco foi estreado e já se encontra disponível. Para saber mais: https://soundcloud.com/jacc-records/4-embalo-apagado; http://jazz.pt/ponto-escuta/2015/11/18/jose-valente-os-passaros-estao-estragados-jacc-records/)

 

 

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