Um Cipriota altamente!

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Durante a recente visita profissional ao Chipre, com o espectáculo UNCONNECTED de Mafalda Deville, conheci (conhecemos) um cipriota “altamente” (esta foi a descrição que coloquei no meu telemóvel depois de trocarmos de números de telefone). Guray (o simpático senhor que se encontra no lado direito desta fotografia) foi um dos vários motoristas que nos conduziram pelo Chipre, no lendário autocarro 19. Como viveu 20 anos em Londres, falava mais algumas palavras de inglês do que a maioria. É verdade que essa capacidade facilitou a comunicação. No entanto, não foi por isso que Guray nos impressionou positivamente. O que nos encantou foi a sua simplicidade. Uma simplicidade real – não aquela humildade subserviente e salazarenta, tantas vezes enaltecida como uma qualidade virtuosa inerente aos portugueses (e que eu, sinceramente, detesto e condeno). Este Senhor foi simples porque foi honesto, porque partilhou sem receios a história da sua vida, o seu sonho de ver um Chipre unido, porque fez perguntas, curioso que estava sobre estes portugueses que se dedicam à dança contemporânea, porque esteve disponível para aceitar a diferença, porque fez novos amigos.
No dia da nossa apresentação em Nicósia (na metade grega do país) houve um mal-entendido. Guray, um cipriota turco, quis assistir ao nosso espectáculo mas não conseguiu entrar. O cipriota grego, encarregue da bilheteira e da porta, não percebeu que Guray pertencia à equipa e pediu-lhe um bilhete (e atenção, que se esclareça: o rapaz não compreendeu mesmo – não houve maldade na sua acção). Um equívoco proveniente de uma circunstância ridícula. São poucos os cipriotas gregos que falam turco e vice-versa.
No final da actuação correu um zum-zum entre nós de que alguém impediu o nosso querido motorista de ser espectador. Quando ouvi o rumor, fiquei muito perturbado. Podia ser um estrangeiro no Chipre, porém não seria um estrangeiro para com os meus ideais. “Amigo meu, não pode ser alvo de descriminação!”
Indignado fui perguntar ao Guray pela sua versão dos factos, todo armado em defensor dos direitos humanos, de peito feito e preparado para ficar furioso, levantar o escândalo e pôr toda a gente aflita (inclusive o Sr. Embaixador de Portugal – um indivíduo muito prestável e agradável).
Enquanto ajudava a arrumar o material, o motorista respondeu calmamente, depois de reflectir uns segundos: “não te preocupes. Está tudo bem. Eu estou muito feliz por ter visto o espectáculo ontem (no ensaio) e por ter feito novos amigos.”
A ponderada resposta desarmou a minha fúria. Tive de fugir para o camarim para chorar compulsivamente. Sentia-me desolado por presenciar, mais uma vez, o que julgava ser racismo idiota (questionava-me como é possível o mundo continuar tão estúpido) e ao mesmo tempo maravilhado e esperançoso. A vítima desta situação mostrava-se tranquila, grata por nos ter conhecido.
Mais tarde, cipriota turco e cipriota grego juntaram-se para conversar sobre o ocorrido. Resolveram tudo entre eles, terminando a conversa fumando cigarros e a rir.
Guray tinha feito mais um amigo. Eu aprendi uma lição. E nunca mais me esquecerei desta noite e espero, no futuro, voltar a tocar para o meu amigo Guray.
Uns dias depois, encontrei-o num mercado, naquele que era o seu dia livre, ao lado da igualmente sorridente e hospitaleira esposa.
Como já referi, trocámos de números de telefone não fosse eu “precisar de alguma coisa. Era só chamar”.
Enfim, um cipriota altamente!

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