Um plano assustador

Vamos imaginar um mundo sem música:Acordamos num silêncio sepulcral. Não ouvimos aquele esquecido relógio a bater compassivamente os segundos do nosso tempo. Não ouvimos os pássaros a interromper o silêncio com o seu chilrear rápido e enérgico. Não ouvimos o vento. Não ouvimos a mosca a deambular pelo quarto, confusa no seu aprisionamento. Não ouvimos nada. Ou melhor, até ouvimos tudo…mas não compreendemos nada.

As vozes que vociferam na rádio durante a Antena Aberta que costumamos escutar diariamente (ou porque estamos contra ou a favor do tema eleito) são imperceptíveis – nem chegam a atingir o irritante patamar de ruído perante os nossos ouvidos surdos de música. A mãe deixa de nos acordar com o vigor dos seus gestos enquanto cozinha o pequeno almoço e lava os talheres do jantar de ontem. O cão ladra ininterruptamente para o vazio das nossas orelhas e por isso o seu chamamento por um carinho, por um cumprimento amigável nunca é correspondido. O telefone toca, mas não atendemos. As pessoas conversam, mas nunca respondemos. O tédio assalta o nosso interior porque não temos sequer uma melodia para nos desafiar.

Somos uns seres inertes, indiferentes, insensíveis. Não temos melodia, ritmo, harmonia. Não caminhamos para a liberdade porque não cantamos e cantar significa estar livre. Não aspiramos o amor porque não cantamos e cantar significa estar apaixonado. Não sofremos de tristeza porque não cantamos e cantar significa estar destroçado, apavorado, angustiado, satisfeito, otimista, esperançoso, cheio de coragem. Cantar significa ser humano.

Em 2013 escrevi um artigo para uma revista onde apontava um plano assustador de opressão e miséria. Esta maquiavélica estratégia propunha o lento desaparecimento da música na nossa vida para destruir a sensibilidade que incentiva pensamentos subjetivos e complexos. Ao “animalizar” o ser humano, o regime (que tem vindo a dar um ar da sua graça durante os últimos anos) garantiria a subserviência dos cidadãos, impondo uma sociedade hierarquizada numa fatal descriminação financeira. Ou seja, uma maioria enorme de escravos muitos pobres trabalhariam para alimentar os devaneios de uma minoria minúscula de ditadores muito ricos.

Eliminando a capacidade de reflexão, desaparece automaticamente a vontade de emancipação intelectual que, noutros momentos das história europeia, conquistou tantas vitórias (basta relembrar a Revolução Francesa, por exemplo).

A arte e a cultura são o nosso principal instrumento de resistência. A componente criativa e particular sensibilidade por si provocada incita a subversão – sim essa atitude que é atualmente tão criticada por se demonstrar inteligente e inquieta.

O plano denunciado no mencionado artigo continua no activo. O espaço público, tanto físico como mediático, foi entregue a momentos balofos de entretenimento onde se apela constantemente pelos sentimentos mais básicos do humano como a pena, o ódio, o rancor, a inveja, etc.

São demasiados festivais com enchentes, demasiados programas televisivos com enchentes, demasiados gritos de submissão para com cantores sem talento que enchem arenas pertencentes às principais marcas de telecomunicações, demasiadas tragédias a encher os telejornais, demasiados comentadores de café (como um dito professor que agora se candidata a presidente) a encher a opinião pública, demasiado futebol, demasiada fátima e demasiado fado. Os mesmos três ffs que encheram a ditadura de Salazar, esse vilão que agora é invocado por portugueses sem memória e com saudades da miséria.

Vários alunos de qualidades e interesses distintos frequentam o ensino artístico especializado. Alguns destes alunos não seguirão música. Tudo bem. O importante é ter acesso à prática, é aproximar cada um a algo generoso e belo como a música para os convencer, mesmo que devagarinho, a pensar, a sonhar, a ter uma curiosidade estonteante pela transcendência, pelos grandes feitos, a desejar ser herói e campeão, a superar todos os receios em vez de ficar preso pelo medo.

Termino com uma forte evidência da circunstância que denunciei neste texto: Os professores que ensinam (com mais ou menos sucesso) música aos alunos em questão não recebem um ordenado há mais de três meses.

José Valente

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